Fizeram-me uma surpresa e levaram-me a uma conferência improvisada do Manoel de Oliveira na sala minúscula da Orfeu, onde não mais de vinte pessoas passaram meia-hora de pé a observar um corpo de cento e dois anos falar do espelho da vida, do Quarto da Vanda e do Pedro Costa, de trabalhar até morrer. Nada que ninguém não soubesse, quando se acompanha a vida do cineasta.
Mas é uma curiosidade quase perversa, e a mesma dos voyeurs, a de ver ao vivo um homem que se agarra à sua cana e ao cinema para não cair, a mesma curiosidade comovente que nos impele a assistir de longe a um milagre.
